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Uma restrição raramente é apenas uma restrição

15 de set.
4 min de leitura

No planejamento de médio prazo, uma atividade não deve ser liberada para execução apenas porque aparece no cronograma.

Antes disso, é preciso verificar se ela realmente poderá ser executada:


  • Os projetos estão disponíveis e compatibilizados?

  • Os materiais chegarão no prazo?

  • A equipe estará mobilizada?

  • O local estará liberado?

  • O serviço anterior será concluído com a qualidade e a terminalidade necessárias?


Essa é uma das funções centrais do planejamento de médio prazo no Last Planner System: preparar o trabalho e remover antecipadamente aquilo que pode impedir sua execução.

É o que o sistema denomina make-ready: transformar o que deveria ser feito naquilo que efetivamente pode ser feito.

O problema é que a identificação das restrições ainda costuma ser superficial.


“Comprar piso” pode esconder um fluxo inteiro


Considere o assentamento de pisos cerâmicos.

É comum que a equipe registre apenas uma restrição: “comprar piso”.

Mas, para que o material esteja disponível na data prevista, talvez ainda seja necessário:


  • Definir o modelo com o cliente

  • Receber a especificação do projetista

  • Quantificar o material

  • Verificar o estoque existente

  • Solicitar a compra no sistema

  • Fazer cotações

  • Aprovar o fornecedor

  • Emitir o pedido

  • Confirmar o prazo de entrega

  • Preparar o local para armazenamento


O que aparece no plano como uma única restrição pode representar um fluxo de decisões e atividades realizadas por diferentes pessoas.

Quando esse fluxo não está claro, parte do trabalho necessário permanece invisível.

A equipe acompanha a compra, mas não percebe que ela depende de uma decisão do cliente. Ou cobra o setor de suprimentos, quando a quantificação ainda nem foi concluída.

A restrição só se torna evidente quando o material não chega. Nesse momento, já é tarde para planejar.


Precisamos detalhar todas as etapas?


Não necessariamente.

Se o processo de compras estiver bem definido, com responsabilidades, prazos e pontos de controle claros, não é preciso reproduzir todo o fluxo no plano de médio prazo.

Mas é necessário saber em que etapa ele está e acompanhar os pontos capazes de impedir que o material chegue no momento necessário.

Quando o fluxo ainda não é confiável, registrar apenas “comprar material” esconde mais do que revela.

O mesmo acontece com outros tipos de restrição.

Não basta confirmar a existência do projeto. É preciso verificar se ele contém as definições necessárias, se está compatibilizado e se foi liberado na versão correta.

Também não basta prever a conclusão da atividade anterior. É necessário avaliar se ela será entregue com a terminalidade requerida, se as inspeções de qualidade foram realizadas e se não haverá interferência de outra equipe no mesmo local.


Identificar restrições exige uma visão sistêmica


Uma restrição não deve ser analisada isoladamente.

É preciso compreender o que acontece antes, durante e depois da atividade, quais fluxos de informação e de materiais sustentam sua execução e quais pessoas participam da preparação do trabalho.

A experiência adquirida em outras obras ajuda, mas não substitui a participação de quem executará o serviço.

Muitas vezes, é o encarregado, o mestre ou o subempreiteiro quem percebe uma necessidade que não aparece no cronograma: um acesso, um equipamento específico, uma condição de segurança, a preparação do local ou uma interferência entre equipes.

Quanto mais diferentes forem as experiências presentes na reunião, maior será a capacidade de perceber condições que poderiam permanecer invisíveis para uma única pessoa.


A empresa não precisa redescobrir tudo em cada obra


Em obras repetitivas ou com tipologias semelhantes, muitas restrições também se repetem.

A execução de revestimentos, por exemplo, pode depender de:


  • Especificação

  • Quantificação

  • Contratação

  • Produção de amostras ou protótipos

  • Aprovação

  • Logística de entrega

  • Armazenamento

  • Conclusão das instalações embutidas

  • Inspeção da base

  • Liberação dos ambientes


Essas condições não precisam ser redescobertas em cada empreendimento.

A empresa pode criar listas padronizadas e bancos de restrições por tipo de serviço, alimentados pelas experiências das obras anteriores.

Essas listas não substituem a análise da equipe. Elas funcionam como memória organizacional e reduzem a possibilidade de esquecer condições importantes.


Quantas restrições devem ser identificadas?


Não existe um número universal.

A quantidade dependerá das atividades analisadas, do horizonte do planejamento, da complexidade da obra e do grau de detalhamento adotado.

Definir uma meta como “15 restrições por reunião” pode gerar um comportamento inadequado: dividir artificialmente os registros apenas para atingir o indicador.

Ainda assim, o número pode funcionar como provocação.

Se uma equipe analisa várias atividades das próximas semanas e identifica somente duas ou três restrições, vale perguntar se o trabalho foi realmente examinado ou se foram registradas apenas as condições mais evidentes.

Nas primeiras reuniões, desafiar a equipe a ampliar o número de restrições pode ajudar a desenvolver sua capacidade de antecipação.

O objetivo não é atingir uma quantidade. É aprender a enxergar aquilo que ainda precisa ser preparado.


Identificar não basta


Cada restrição precisa ter:


  • Um responsável

  • Uma data para remoção

  • Uma forma de verificar se foi efetivamente eliminada


A data deve estar conectada à necessidade da produção.

Não pode ser tarde demais, obrigando a equipe a improvisar, nem antecipada sem necessidade, criando prioridades artificiais e sobrecarregando projetistas, compradores e gestores.

Remover restrições a tempo é diferente de tentar resolver tudo imediatamente.

Também é importante acompanhar o lead time entre a identificação e a remoção.

Esse dado ajuda a compreender quanto tempo os processos de apoio realmente precisam para responder. Uma compra recorrente pode levar dez dias, uma contratação pode exigir trinta e uma definição de projeto pode depender de um ciclo ainda maior.

Conhecer esses tempos permite definir melhor o horizonte de análise e avaliar a capacidade da organização de preparar o trabalho.


O trabalho antecipado que evita a urgência


Considero o planejamento de médio prazo uma das atividades mais importantes do Last Planner System e também uma das mais exigentes.

Analisar atividade por atividade, compreender suas dependências e conectar projetos, suprimentos, produção, qualidade e decisões do cliente pode tornar a reunião mais longa.

Mas não existe preparação consistente do trabalho sem esse esforço.

Depois que as restrições forem identificadas, todos precisam compreender o que deve ser feito, por quem e até quando.

Não basta registrar um nome e uma data na planilha. É necessário comunicar a necessidade, confirmar o compromisso e acompanhar se a remoção está avançando no prazo compatível com a execução.

Fazer bem o planejamento de médio prazo exige tempo, método, participação e acompanhamento.

Pode dar mais trabalho durante a reunião.


Mas é esse trabalho antecipado que evita que a obra precise resolver às pressas aquilo que poderia ter sido preparado antes.


 
 
 

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